Seduzi amores e paixões e numa frieza calculada as condenei a tortura da minha indiferença. Tantas vidas em hemorragia pela minha falta. As abandonei, cativas e a mingua, num beco escuro d’alguma circunstancia da vida e, não satisfeito nesse ‘modus operandi’, enterrei em cova rasa os corpos das lembranças que um dia me flagraram, assim: um colecionador de ossos.
Colecionava os ossos dos sonhos que feri e enclausurei até sufocarem, das ambições que matei a mão armada, do otimismo que sadicamente torturei, dos projetos que esquartejei, das aspirações e ideais incontáveis que degolara.
Tudo fiz numa compulsão semi-sóbria.
Dos mais vis e violentos crimes já contabilizados na história pelos júris do mundo inteiro, no mundo em que vivo, os meus não vão a julgamento. Descobri que nesses crimes o algoz e minhas vítimas são unos, são vidas da mesma alma.
Dos ossos nessa coleção anuária, cada um, um mundo em si mesmo, é evidencia das vidas que ceifei de mim, do “eu” antes inteiro.
Hoje me olho no espelho e vejo fragmentos do que um dia fui. Um pseudo-ego, suposto ser completo.
Estilhaços de antigos desejos e expectativas que aniquilei assombram-me como fantasmas revoltosos lembrando-me dos ossos que guardei nos porões do meu ser.
E destas vidas que rendi, minh’alma perdi.
De todas as mortes que causei, sou eu quem exalo pior odor putrefeito e decomponho meus sentidos num mórbido pesar fúnebre do existir.

4 comentários:
Shalom!
1. Uma alegria conhecer seu blog. Que o Deus Eterno resplandeça o rosto Dele sobre ti.
Medite em Colossenses 3.16
Nele, Pr Marcello
P.s> visite:
http://davarelohim.blogspot.com/
e veja o texto:
O Testamento de Paulo - II Tm 4
"O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente..."escreveu Fernando Pessoa (sei lá eu em qual de seus pseudos).
Estranhamente, a vida reserva no meio da mais intensa dor (no caso, no mais doloroso anestesiamento - a dor da lepra?) as mais profundas, dolorosas e memoráveis frases.
O texto fala muito, já que sei o que o "autor" passa.
Pena que estas pérolas tão profundas só sejam possíveis - na maioria dos casos - em almas torturadas.
Será que nossa oração ao Senhor, quando pedimos para estar acima da mediocridade, está sendo respondida quando Ele nos permite cirandar na mais profunda tristeza?
Creio que este texto pode se descobrir incompleto: que a aniquilação dos sonhos que eram faces de uma única alma gerará algo coeso, firme, tranqüilo,em paz.
Velho Amigo
Ah sim...
Tino Marcos..."Quando o vento Soprar"...
Este texto daria uma boa entrada para a explanação do " Vale dos Ossos Secos"...
Oi Velho amigo.
Pois é, uma morbidez no texto que tende à uma tentativa de externar o canto fúnebre de uma depressão.
Mas não entendi:
" Creio que este texto pode se descobrir incompleto: que a aniquilação dos sonhos que eram faces de uma única alma gerará algo coeso, firme, tranqüilo,em paz."
- Como isso seria possível?
Sobre o texto como entrada pra uma mensagem sobre o "Vale de Ossos Secos", se quiser pode utilizá-lo pra tal, ou trechos dele, fique a vontade. Só não sei se o público de uma mensagem assim, cristã, assimilaria corretamente ou no minimo suportaria a morbidez do mesmo.
E esse "vento", se me mandarem "profetizar" vou ficar devendo mesmo hehehe. É esforço demais pra quem está se esvaindo.
E também não lembro se pedi alguma vez pra sair da mediocridade. Afinal a "ignorancia é que é uma benção" principalmente ultimamente hehehe.
Obrigada pela visita. E fiquei esperando você ligar de novo: bem quando o papo iria pinçar uma nova e grave ferida, você teve que desligar...
Até a próxima velho amigo!
Postar um comentário